Vamos consumir cultura? O texto a seguir foi publicado na edição deste sábado, 18 de abril, do Jornal O Norte. foi escrito por mim, com muito carinho, até porque o Grupo Lavoura conta com alguns dos grandes talentos do teatro paraibano. Confira!
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Longas cortinas de tecidos com frases aparentemente desconexas, uma armação de guarda-chuvas, uma mala antiga de viagem, um único ator e cerca de 80 pessoas. Durante cerca de uma hora e meia, todos esses elementos, juntos e sobre o mesmo palco – inclusive a platéia -, são parte integrante do universo fantasioso, delicado e cativante criado pelo escritor russo Nikolai Gogol em seu conto “Diário de um Louco”. A interpretação do texto do Séc. XIX, adaptado para o teatro pelo diretor Jorge Bweres e pelo ator André Morais, está de volta ao Theatro Santa Roza, em João Pessoa. Hoje e amanhã, às 20h, o Grupo Lavoura, que assina a montagem, realiza suas duas últimas apresentações antes de cair na estrada em turnê nacional – “Diário” foi selecionado para integrar o Projeto Palco Giratório do Sesc deste ano.
O espetáculo traz a história simples de um funcionário público apaixonado pela filha de seu chefe de repartição. Consumido por esse sentimento e frustrado por não ser sequer notado – quiçá correspondido -, esse homem comum mergulha cada vez mais em uma realidade fantasiosa, paralela, com impressões que só ele consegue ter. Esse “louco”, na verdade, leva o público a oscilar entre a piedade, a compaixão, a alegria, a melancolia, a força e a esperança. Afinal, é a platéia cúmplice das insanidades apaixonadas desse simples servidor tomado de amor e com ele reage a rompantes do chefe, ouve os diálogos malucos com as cachorrinhas da madame, sente o frio da solidão compartilhada pelo protagonista e pode dividir com eles lágrimas de um universo à parte, mas em alguns momentos tão lúcido.
Diário de um Louco não é uma comédia, mas faz sorrir; não é apenas um drama, mas tem momentos tristes; não é um espetáculo qualquer, mas pode ser entendido por qualquer pessoa. Certamente por isso o espetáculo do Lavoura conquistou, em 2008, três importantes prêmios no Festival de Teatro de Guaramiranga (CE): Melhor Espetáculo, Melhor Música, Melhor Ator para André Morais. E ganhou, por sua força cênica, um lugar no Palco Giratório – um dos projetos de arte mais concorridos do País. Ao lado de Diário de um Louco, apenas o ator Luiz Carlos Vasconcelos, com o espetáculo “Silêncio Total”, protagonizado pelo impecável palhaço Xuxu, representa a Paraíba na trupe escolhida pelo Sesc.
Além da força do texto de Gogol, a montagem do grupo paraibano conta com uma equipe certeira. Além do belo trabalho feito pelo ator/co-diretor André Morais e pelo diretor Jorge Bweres, o espetáculo tem trilha sonora minuciosamente pesquisada e montada por músicos do Laboratório de Composição da UFPB – em um desenho de som que dá ainda mais força à peça. Figurino, luz, cenário, interpretação: tudo em uma harmonia surpreendente. Por isso, esse é o tipo de espetáculo que agrada de olhares mais técnicos aos mais sentimentais. Loucura perder.
Depois das apresentações deste final de semana será a vez de 40 outras cidades, espalhadas por 18 estados das cinco regiões do Brasil prestigiarem o espetáculo paraibano. Essa é a agenda do Grupo Lavoura, agora, com o cronograma do Projeto Palco Giratório. “Nesse roteiro estão incluídas 15 capitais e 10 festivais. Para nós o Projeto permite prestarmos um serviço social muito importante, pois levaremos nossa arte não só aos grandes centros mas ao interior do País. Percorreremos todo o estado do Paraná e Pernambuco, chegaremos até o interior da Amazônia e do Maranhão. Uma experiência única e certamente muito rica”, comenta Jorge Bweres, diretor do Diário.
O espetáculo só volta ao palco paraibano no próximo mês de setembro, quando se apresentará em Campina Grande. Até lá, somente apresentações além-fronteiras. Os ingressos custam R$ 16,00 e R$ 8,00.
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As fotos deste post foram feitas por Christinne Eloy. Aprecie as imagens aqui, mas não deixe de prestigiar o espetáculo lá, no Theatro Santa Roza.
